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[Revista Digital] Reflexões sobre Códigos de Vestimenta, Imagem Pessoal, Moda e Redes Sociais | Marica Lopes

Reflexões sobre Códigos de Vestimenta, Imagem Pessoal, Moda e Redes Sociais
Universidade de São Paulo-USP

Marcia Lopes
http://lattes.cnpq.br/6861439039084418
Profª Drª. Suzana Avelar

http://lattes.cnpq.br/0112830078679808 Resumo

O estudo tem como objetivo refletir sobre o cotejamento entre os uniformes/ dress codes e a individualidade no que diz respeito ao vestir, esses dois conceitos analisados na esfera da web. Em hipótese nenhuma esgotar o tema. mas sim, iniciar o entendimento no que diz respeito ao efeito alcançado na “criação” da imagem. Limitamo-nos à rede social Instagram. Assim sendo, a partir de recortes propostos por autores que se posicionaram em momentos anteriores, o artigo pretende dialogar comportamento e individualidade, de maneira a construir, num futuro próximo, um estudo mais complexo acerca do tema.

Palavras-chave

Código de Vestimenta, Dress Code, Individualidade, Comportamento, Redes Sociais, Instagram, Imagem.

Introdução
Há uma busca incessante, por vezes fatigante, pela essência, verdadeira imagem, por encontrar um lugar no mundo.
A breve pesquisa realizada nos leva por um caminho onde podemos perceber que existe uma tríade, por vezes desconexa, mas que tem por bandeira valores muito fortes na contemporaneidade:

qual seja a essência de cada indivíduo, as referências bombardeadas pelas redes sociais e adequação à vida social.

No presente artigo, propõe-se um estudo sobre a importância do vestir em cada ponta desse triângulo.

  1. O Dress Code – Os Códigos de Vestimenta – Os Uniformes (?) O recorte observado foi o ambiente organizacional, o dress code profissional. Em não raros os casos, a presença de uniformes para determinadas categorias.

De acordo com Cooper (2009, Prefácio), “A imagem profissional projetada por um indivíduo no mundo dos negócios é muito importante e pode causar um efeito profundo no progresso de sua carreira”.

Essa afirmação, constante de uma publicação de 2009, não poderia estar mais atual. Por mais que estejamos em momentos desconstrutivos, em comportamentos disruptivos, certa padronização ainda é exigida, respeitada e aceita em vida social.

Tanto assim o é, que o New York Times comentou, em 25/05/20161 na abertura da exposição denominada Uniformity, que, enquanto a moda propõe homogeneidade segmentada e, ao mesmo tempo, possibilidades de particularizar a aparência, os uniformes, como explicita o substantivo, impõem apenas a uniformidade.

Segundo, Moreira, Amorim, Libretti, “As organizações, ao contrário dos pesquisadores, estão convencidas dos benefícios do dress code explícito, tanto pelo suposto ganho relativo ao controle da imagem da organização, quanto pelo reforço à hierarquia e relações de poder. (…) Os valores são as concepções ou desejo de como deveriam ser os comportamentos e elementos da organização. São os indicadores desejados de acordo com a filosofia dos fundadores ou líderes da organização. Como exemplo, credibilidade, honestidade e profissionalismo”.

Desta feita, por mais que se privilegie o be yourself, não há como desconsiderar o elemento código de vestimenta como ponto de contato entre as pessoas, presente nas relações e comportamento da sociedade.

  1. A Individualidade – A Imagem Pessoal – O “Estilo”

Há um incontável número de referências para quem está em busca de si, de sua imagem, de seu estilo.

Por si só, este fato demonstra certo paradoxo, tendo em vista que, se alguém acessa a rede, à procura de si e de sua marca no mundo, depara-se com um universo de referências que agregam pouco ou, por vezes, nada ao processo individual.

Ao demandar horas do seu dia em acessar os diversos perfis e curtir os infindáveis posts, a busca torna-se tão automatizada que o objetivo inicial passa a figurar como mero coadjuvante e, ao final do dia, pode ter se apagado da memória de seu buscador.

Existe uma estética própria, que pode não fazer brilhar todos os olhos, mas seus algoritmos indicam quem merece ser destaque na comunidade.

1 FRIEDMAN, V. The end of the Office Dress Code. The New York Times, Fashion & Style, May,
26th, 2016, available on : www.nytimes.com/2016/05/26/fashion/officefashion-uniforms, acesso em 27/05/2016

As perguntas relativas a autoconhecimento (Quem sou eu? Quais meus valores? O que faz sentido para mim? Como as pessoas me enxergam?), que estariam dispostas a facilitar a delimitação de bases para fincar conceitos, podem ficar no esquecimento, pois tudo começa a agradar e interessar. E a busca interior? Se afasta.

Tudo isso por conta da estética apresentada nos perfis. Padrões determinados que afastam a individualidade, mas nos mostram o caminho de comportamentos dominantes, assim como ensina Manovich:

Em seu sentido popular, “estética” quase sempre se refere à beleza e ao gosto. Mas “estética” também tem outro sentido: o de um princípio ou um conjunto de princípios; uma visão normalmente manifestada através das aparências ou estilos do comportamento.

A era da infoestética – entrevista com Lev Manovich – Cicero Inácio da Silva – junho 2012 O caminho enveredado pela era do domínio da aparência encontra respaldo nos estudos de Manovich, principalmente quando se manifesta a respeito da infoestética:

Não quero sugerir que exista um estilo “infoestético” hoje em dia, ou mesmo que irá emergir algum no futuro.

Particularmente, a infoestética refere-se às práticas culturais que podem ser melhor compreendidas como uma resposta às novas prioridades da sociedade da informação: dar sentido à informação, trabalhar com ela e produzir
conhecimento a partir da informação.

A era da infoestética – entrevista com Lev Manovich – Cicero Inácio da Silva – junho 2012 Ratificando a existência da infoestética, com recorte no comportamento do vestir, Monneyron, apud Mesquita, sintetiza aquilo que alguns teóricos chamam de “civilização do look”: as regras citadas pela moda são situações informais e representam acordos vinculados a valores morais, sociais ou de tradição. Elas não são impostas. No entanto, quem não as segue, pode ser considerado à margem dos conceitos sociais vigentes.

Assim sendo, é legítima a busca pela individualidade, mas inegável que o influxo de referências diárias afeta a automanifestação, diferenciada, ao menos.

  1. Redes Sociais – Moda e Instagram Dos 03 elementos de estudo (código de vestimenta, imagem e rede social), no ambiente do Instagram é onde mais nos deparamos com a dicotomia moda e imagem. Onde mais se percebe a
    confusão entre os institutos, mas também, ainda que timidamente, dá a opção da escolha.

São várias as demonstrações, por vezes muito válidas, em conseguir conciliar sua imagem pessoal, sua identidade, ao dress code e códigos sociais.

Plataforma que ainda tem em seu bojo a atuação de digital influencers do look do dia, mas que não é mais dominada por esses perfis. Profissionais de comportamento (Consultores de Imagem, coaches, etc.), produzem a postagem e repassam a informação de uma maneira a permitir o resgate da individualidade no vestir, mesmo àqueles subordinados a padrões de imagem mais rígidos.

Segue um exemplo:

Imagem é percepção. Você sabe qual a percepção os outros têm sobre você?

A máxima de que a primeira impressão é a que fica. Pois é, ela fica mesmo. Estudos apontam que em 30 segundos você é capaz de formar uma lista de impressões completa sobre o caráter e a habilidade da pessoa observada. Isto vale também para aqueles que nos observam.

Nos Estados Unidos, por exemplo, uma pesquisa com 150 empregadores revelou que a maior razão de rejeição é má
aparência – mais até do que atraso ou hostilidade. “Reações desse tipo estão impregnadas na sociedade, desde os tempos em que nossa sobrevivência dependia se éramos astutos e rápidos para medir uma situação de perigo.

Somente os que podiam ‘ler’ os outros apuradamente viviam para lutar no dia seguinte”. Nós temos meio minuto para formar uma boa imagem, pois naquela lista estão pontos como educação, sucesso, personalidade, nível de sofisticação e confiança, senso de humor e nível social. “Infelizmente, esse tempo não é suficiente para mostrar todas as habilidades, currículo, talentos, treinamento e uma lista substancial que satisfaça entrevistadores e clientes”. (…)

@lilianriskalla2
Além de gerar conteúdo como meio de informação, o forte da rede são as imagens, que
permitem aos usuários terem inspirações que os auxiliem no equilíbrio entre seu dress code e imagem
pessoal.


Figura 1 – Dress code e Estilo
2 A citação dos perfis ora citados se deu única e exclusivamente em função das legendas e textos que se encaixavam na proposta desse artigo. Ao colocar na rede Instagram hashtags (#) com as palavras-chave do objetivo, restaram infindáveis perfis e ambientes virtuais que trazem em seu bojo conceitos semelhantes aos que foram escolhidos.

Figura 2 – Uniforme e estilo
Entretanto, da mesma maneira que essa rede alimentou ambientes propícios a padronizar lifestyles, colocar influencers e marcas em pedestais sem muitos questionamentos, está acompanhando os movimentos da moda e da sociedade.

As marcas estão retomando as rédeas, num aceno de perceber a voz do indivíduo e dar
a ela o devido respeito.

Especialistas, inclusive, já informaram a respeito desse movimento:
(…)

1) Mais representatividade: se ver na marca de alguma forma, inteligentes, as marcas já entenderam isso e apostam cada vez mais em publicidades com foco na representatividade.

2) Rapidez: os consumidores estão cada vez mais impacientes, a vontade de esperar está em declínio e, como resultado, os consumidores estão em busca de quem atenda rápido o seu desejo, ainda mais se tratando de moda, algo tão dinâmico.

3) Marcas de moda que se comuniquem de forma honesta: por isso, tantas marcas de moda investindo
em microinfluenciadores com opiniões mais genuínas têm sido uma exigência bem presente à comunicação
honesta.

4) Moda e impacto social: a sustentabilidade, a consciência e a ética na hora de produzir e comprar é uma discussão super presente no universo fashion. Hoje, movimentos ligados à conscientização e à divulgação do consumo irresponsável estão ganhando força. Um exemplo é o documentário “The True Cost“, que deixa as coisas mais difíceis para as grandes fast fashions que escolhem ignorar as mudanças no cenário sociopolítico mundial.

@priscila_brandingpessoal
O perfume trazido por esse novo comportamento talvez seja o alinhamento de caminhos para um movimento realmente legítimo, quando se diz respeito à individualidade.

Conclusões preliminares
Quando surgiu a inspiração para o presente artigo, as evidências levavam a crer que talvez não encontrasse as respostas que procurava.

As perguntas iniciais para a escrita foram:
 Ainda há individualidade? Sua busca é genuína?
 O estilo pessoal foi tomado pela influência das redes digitais?
 Ao se vestir, quais traços da personalidade ainda aparecem?
 Estamos conscientes desse ciclo que nos cerca?

Como foi possível constatar neste trabalho, estamos no fluxo de sedimentação de valores e disrupturas com conceitos fechados. Entretanto, essa dicotomia nos mostra que está sendo aberta uma servidão que resultará no equilíbrio de nosso contexto social, ao qual precisamos (?) nos enquadrar e, ao mesmo tempo, conseguir abrir espaço para
valores que nos são caros – o vestir é um deles.

Num futuro próximo, saberemos lidar melhor com as relações entre imagem, valores, crenças, sentimentos e dress code. As redes sociais não desempenharão um papel puramente simbólico, mas ativo e legítimo na busca da identidade individual.

De acordo com Polhemus, citado por Mesquita, “(…) este saber ser ‘estrategista do estilo’ (…) faz com que o corpo funcione como (…) um campo informacional, cujos dados poderão ser determinantes do alcance das relações pessoais, oportunidades de trabalho, inserção social, entre outros componentes do modo de vida”.

Ao alcançarmos esse ápice, enxergaremos o indivíduo certo de sua percepção visual, adequado ao dress code do seu meio e em consonância com os caminhos digitais.

Ou não.

Referências
AGUIAR, Titta. Personal Stylist: guia para consultores de imagem. 3. ed., São Paulo:
Companhia da Letras, 1997.
BALBINO, T.J.S; PINHO NETO, J.A.S.; AQUINO, A.P.P. Estilo Pessoal: Ferramenta Estratégica de Relações Públicas. Revista Internacional de Relaciones Públicas, V. V, n 9, 2015, p. 207- 228. Disponível em:  http://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=5106082. Acesso em 2/set/ 2015.

COOPER, Ann A. Imagem profissional. Tradução Martha Malvezzi Leal. São Paulo: Cengage Learning: Editora SENAC Rio de Janeiro, 2012.

DANTAS, Isadora. Moda e imagem no ambiente profissional. Disponível em: http://www. fumec.br/revistas/achiote/article/view/2703. Acesso em: 28/set/2015.

FISCHER-MIRKIN, Toby. O código do vestir: o significado oculto da roupa feminina.

Tradução Angela Melim. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.
LIBRETTI, Maria Alessandra dos Santos, AMORIM, Maria Cristina, MOREIRA, Rosana. Dress Code: Das Considerações Teóricas às Práticas nas Organizações. Revista Pensamento & Realidade – v. 33, n. 1, p. 2-18, jan./mar. 2018 – e-ISSN: 2237-4418
MESQUITA, Cristiane Ferreira. Políticas do vestir: recortes em viés. 2008. Tese (Doutorado em Pós-graduação em Psicologia Social PUC-SP) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

PISA, A.J.; FILHO, G.G.. Comunicação e a estética laboral nas organizações. Líbero – São Paulo, V. 18, n 35, jan./jun. 2015, p. 89-98. Disponível em: http://repositorio.uscs.edu.br/handle/123456789/746. Acesso em 19/mar/ 2017.

SILVA, Cicero Inácio da. A era da infoestética – entrevista com Lev Manovich. Revista do Programa de Pós-graduação em Comunicação Universidade Federal de Juiz de Fora / UFJF ISSN1981- 4070 Lumina 1 Vol.6 • nº1 • junho 2012–1

Referências Webgráficas
https://www.instagram.com/ jubcaldeira
https://www.instagram.com/ lilian riskalla
https://www.instagram.com/ priscila_brandingpessoal

Reconhecimentos: Trabalho desenvolvido na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH), da Universidade de São Paulo (USP), para a Disciplina Cultura das Novas Tecnologias Aplicada: Moda e Têxtil, do Mestrado Acadêmico em Têxtil e Moda.

Marcia Lopes
Formada em Estilo e Imagem Pessoal, Personal Shopper e
Coloração Pessoal |Interfaces da Moda: SENAI Antoine
Skaf |Cursando Desenho de Moda |Membro da Associação
Internacional de Consultores de Imagem | Aventuro-me
neste mundo da moda desde 2013| Em 2015, saí dos
bastidores e me lancei nas redes sociais produzindo
onteúdo |Também colaboro com o blog Portal da
Secretária | Apresentadora do Programa Papo e Estilo.
Ah! Sou formada e pós-graduada em Direito

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