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[Revista Digital] O Pretinho nada básico | Marcia Lopes

Saindo do mundo da diversidade das cores e adentrando um pouquinho na história da, arrisco dizer, preferência nacional: o preto.

Só não vou dessa vez falar com o que combina com o que não combina, mas compartilhar com vocês um pouco da História do preto no ambiente do luto.

Esse artigo foi adaptado de um capítulo escrito por uma colega da USP, a Kelly Simonini, afinal de contas, cultura e canja de galinha nunca fizeram mal a ninguém. Bora?

A partir da década de 1970, o aprendizado sobre a morte tornou-se uma ciência, a chamada História das Mentalidades ou História da Morte.

Mas, em toda a história, não houve um momento no qual a morte foi tão reverenciada quanto o Período Vitoriano. Com uma expectativa de vida de 30 anos em 1801, a população vivia rodeada pela morte, seja ela pela falta de higiene durante a preparação de alimentos, nos partos – os quais acarretavam muitas doenças – ou até na utilização de medicamentos duvidosos, que contribuíam para a morte prematura.

Durante o século XIX, o luto modificou profundamente os costumes, criando hábitos próprios e extremamente rigorosos. Foi durante a Inglaterra vitoriana que o preto tornou-se a cor tradicionalmente associada ao luto, fazendo com que esses trajes se tornassem uma parte intrínseca do guarda roupa vitoriano.

A cor preta tornou-se específica do vestuário monástico por volta do ano 1000, com o objetivo de indicar a negação e a restrição dos desejos.
Sendo associado então à cor da ausência, o preto tornou-se a cor oficial do luto, concomitantemente ao momento em que o Catolicismo apoderava-se de ritos sociais laicos, como o ofício de óbito, casamentos e batizados.

Inicialmente, a cor preta era usada durante o luto unicamente pelas pessoas envolvidas nos rituais fúnebres, como coroinhas, ajudantes, carpideiras e carregadores de caixão; gradativamente, familiares e amigos do falecido passaram a fazer uso desse hábito, com o objetivo de demonstrar respeito ao defunto.

Foi somente a partir do século XVII que o preto tornou-se definitivamente a cor do luto; o que antes era restrito a países como Espanha, França e Itália, nesse século toma uma proporção maior e ascende a toda Europa ocidental, sendo usado não só pela aristocracia, mas também pela burguesia e patriciado.

Nesse cenário, surgem costumes cada vez mais rígidos, apresentados nas compilações de bons costumes da sociedade, os chamados tratados de boas maneiras. Porém, essas regras de simbologia de cores no luto tornaram-se efetivamente parte dos costumes somente no século XIX.

Como sugere o manual Manners and Rules of Good Society Or Solecisms to be Avoided, cujo título foi assinado apenas por “um membro da aristocracia”, em 1888:

O período mais longo para o luto de uma viúva é de dois anos. O período mais curto é de dezoito meses.
Antigamente, o véu de crepe era usado por um ano e nove meses; durante os primeiros doze meses, o vestido deve estar inteiramente coberto de crepe […].
Uma viúva não deve voltar à sociedade em menos de três meses e, durante esse tempo, ela não deve aceitar convites nem emiti-los.
Suas visitas devem-se limitar a sua família e amigos íntimos.
Após três meses, deve-se começar gradualmente a voltar à sociedade, mas bailes e danças devem ser evitados durante o primeiro ano […]. (A MEMBER OF THE ARISTOCRACY, 1888, tradução nossa).

Essa modificação deu-se quase que exclusivamente no vestuário feminino, fazendo com que as mulheres tivessem um guarda-roupa exclusivo no tom negro, com todos os acessórios: sombrinhas, leques, luvas, lenços, bolsas e jóias para tal.
Era sinônimo de decência e castidade vestir-se apropriadamente para essa ocasião, limitando-se aos homens apenas acrescentar o uso de luvas pretas ao traje habitual.

Assim como era sinônimo de uma boa conduta vestir-se apropriadamente durante o luto, também era imprescindível um velório e enterro dignos, os quais muitas vezes causavam a falência das famílias, pois se tratava de funerais onerosos.

Embora com tanta etiqueta cerimonial, era através da vestimenta que o luto possuía sua maior demonstração, exibindo a dor através das roupas – que formavam então uma espécie de barreira, separando o indivíduo de tudo que era mundano.

Definitivamente, a simbologia e as mensagens que as cores transmitem são sempre apaixonantes. Caso você, querido Leitor, não pense assim, concorde comigo que, no mínimo, instigantes.
Kelly, obrigada pela colaboração.
Um beijo grande e até a próxima.

Marcia Lopes
Formada em Estilo e Imagem Pessoal, Personal Shopper e Coloração Pessoal |Interfaces da Moda: SENAI Antoine
Skaf |Cursando Desenho de Moda |Membro da Associação Internacional de Consultores de Imagem | Aventuro-me
neste mundo da moda desde 2013| Em 2015, saí dos bastidores e me lancei nas redes sociais produzindo
onteúdo |Também colaboro com o blog Portal da Secretária | Apresentadora do Programa Papo e Estilo.
Ah! Sou formada e pós-graduada em Direito.

 

*Veja os modelos enviados por Marcia Lopes nas páginas da edição 28.

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