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[Revista Digital] É possível perdoar alguém que nos magoa? | Olga Tessari

É possível perdoar alguém que nos magoa? – © Olga Tessari

 

Quem nunca se magoou com palavras ou atos de pessoas em quem confiava e teve dificuldade para perdoá-las?

Quando alguém nos magoa, seja através de determinados comportamentos ou com palavras, é muito comum alimentarmos o ressentimento, ficarmos irritados, tensos, ruminarmos as palavras ou as atitudes da pessoa, perdermos o sono e permanecermos estupefatos diante do que ela fez. É difícil acreditar que ela agiu dessa forma, até porque jamais esperávamos tal atitude dela. E o ressentimento é tanto maior quanto mais profunda for a mágoa, quanto maior for o grau de importância da pessoa em nossa vida e o nível de confiança que depositávamos nela.

Mas, antes de começar a alimentar esse sentimento tão ruim que paralisa e traz tanto sofrimento, vale a pena parar, pensar e refletir: até que ponto a pessoa agiu de propósito ou não para nos ferir ou nos magoar? Será que ela tinha mesmo a intenção consciente de nos ferir?

Em muitas situações, quem nos magoa não tem a consciência de que nos feriu, nem sabe a profundidade da dor que nos causou! Sim, a pessoa errou e errou feio, mas, provavelmente, ela não tinha a intenção consciente de fazer o que fez! Errar é humano! Atire a primeira pedra quem nunca magoou alguém de forma não intencional!

É muito comum não aceitarmos e, principalmente, nem tentarmos compreender o que levou a pessoa a agir daquela forma ou a proferir aquelas palavras, porque, na nossa visão, nós jamais agiríamos da mesma forma que ela. É preciso entender e aceitar que cada um age e se comporta de uma maneira diferente, de acordo com a sua criação e experiências de vida. Não devemos esperar que a pessoa se comporte da forma como gostaríamos que ela agisse. E, se ela vai contra as suas expectativas, é comum ter a sensação de frustração, de muita raiva, de mágoas e de tristeza diante dessa situação.

Para perdoar, é preciso aceitar o fato de que, se a pessoa errou, certamente ela tinha a intenção de acertar e que, se o comportamento dela provocou a mágoa, certamente ela não o fez de forma intencional ou proposital. Em geral, ninguém erra de propósito!

Em meu consultório, costumo ouvir os lamentos de pessoas que se sentiram magoadas ou ofendidas com determinadas atitudes dos outros: “Não admito que ele tenha feito isso comigo”, “Não entendo porque ela fez isso”, “Jamais imaginei que ela pudesse fazer isso”, “Eu não esperava isso da parte dele”. Tais frases só revelam a dificuldade que muitas pessoas têm de admitir que o outro não agiu de acordo com suas expectativas. E é essa dificuldade que impede as pessoas de perdoarem, justamente porque elas não aceitam que o outro tenha agido de forma diferente daquela que era esperada: é preciso sair do papel de vítima da situação para tentar compreender e aceitar o erro do outro. Claro que há pessoas que agem de forma intencional, mas aqui falamos de pessoas que fazem parte da nossa vida e pelas quais temos estima e apreço: sabemos que elas têm afeto por nós e que, certamente, não querem nos fazer sofrer de forma alguma!

Ao se sentir magoado, é preciso ir até a pessoa que o magoou e ter uma conversa franca, aberta, dizendo com calma e educação o quanto ela magoou você! Esse é o primeiro passo para esclarecer a verdadeira intenção dela, mostrando a ela o mal que causou em você e o quanto isso o magoou. Pensar em momentos bons pelos quais vocês já passaram ajuda a amenizar a raiva que você possa estar sentindo nesse momento. Se você resolveu conversar e tentar esclarecer a situação, dê ao outro a chance de falar. E o mais importante de tudo: conversem civilizadamente, sem troca de ofensas, que só vão servir para piorar a situação e provocar mais mágoas ainda.

Em geral, depois dessa conversa aberta, com tudo esclarecido entre as partes, é comum a pessoa ferida perdoar quem a magoou.

O ato de perdoar encerra o assunto, problema ou situação e dá uma nova possibilidade para a reconciliação e o recomeço com o outro. Ouvir de coração quem nos magoou e admitir nossos próprios erros é o caminho para o perdão.

Perdoar, tanto para quem perdoa como para quem é perdoado, proporciona um alívio, uma diminuição da tensão, traz paz e tranquilidade: é uma sensação similar àquela que temos quando nos sentimos com o dever cumprido. Quem perdoa coloca um ponto final na história, uma pedra no fato e vira a página para seguir em frente com a vida! A pessoa que realmente perdoa para de sofrer pelo acontecido, acaba com a sua mágoa e passa a considerar apenas que esse foi mais um fato de sua vida: com o passar do tempo, ela até pode vir a rir de tudo o que aconteceu!

A partir do perdão, justamente porque deixa para trás o que aconteceu, quem perdoa se entrega à construção de uma nova etapa no relacionamento com a pessoa perdoada. Enfim, é a cicatrização completa da ferida que não vai mais doer, justamente porque ela (ferida) não existe mais!

Quem foi perdoado, sente-se feliz por conseguido o perdão, afinal, em muitos casos, a pessoa não errou de propósito, muitas vezes nem tinha consciência de ter magoado o outro e sofre muito porque teme perder o amor ou a amizade do outro. Enfim, com o perdão, vislumbramos o fim do sofrimento para ambas as partes.

Mas será que sempre vale a pena perdoar? É importante decidir se a pessoa que o magoou merece uma segunda chance ou não. Comece avaliando toda a sua relação com ela. Relembre também se essa foi a primeira vez que este tipo de mal-estar aconteceu ou não. Se ela é recorrente no mesmo erro, talvez seja o caso de encerrar a relação com ela em definitivo, até porque ela não aprendeu com seus erros e continua a repeti-los. E, certamente, você vai se magoar novamente em algum momento futuro.

É importante salientar que o perdão não significa que a relação voltará a ser exatamente como antes. A situação foi esclarecida, mas não quer dizer que o fato foi esquecido. Perdoar é deixar de sofrer por alguma coisa, mas a confiança só será retomada na medida em que o tempo passar. Ficar com o “pé-atrás”, portanto, é normal até que a confiança seja retomada.

Não esquecemos o que vivemos, até porque o vivido já faz parte da nossa história de vida, mas podemos parar de sofrer por aquilo que vivemos e que já faz parte do passado. A confiança perdida pode ser resgatada aos poucos, na medida em que a pessoa perdoada vai se comportar de forma a reconquistá-la.

 

Dra. Olga Tessari – Psicóloga, Psicoterapeuta, Pesquisadora, Palestrante, Escritora e Consultora Comportamental. Autora dos livros “Dirija a sua vida sem medo” e “Amor X Dor”. Mantém seu próprio site na Internet há mais de 17 anos com mais de mil páginas e mais de 100 milhões de visitantes, sobre problemas que afetam o seu dia a dia e a sua qualidade de vida, apontando caminhos para resolvê-los. Visite o site: www.olgatessari.com

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