[Revista Digital] Consumo compulsivo | Olga Tessari | Executiva News

Quem é que não gosta de fazer compras por prazer? Vivemos numa sociedade consumista onde os apelos para o consumo estão presentes em todos os lugares, estimulando-nos a comprar mais e mais a cada dia. As campanhas publicitárias tratam os produtos como caminhos para a felicidade, para a realização, para o poder e o prazer: quem não quer ter um sorriso branco, tornar-se irresistivelmente atraente e ter todos os olhares voltados para si? É o que prometem vários produtos! E quem não quer se sentir poderoso com o carro do ano, com o celular top de linha e etc.?

 

Comprar por prazer e gostar de comprar é algo muito diferente de comprar de forma compulsiva!

Cerca de 2% a 8% da população mundial sofre desse mal, que coloca em risco não só a conta bancária, mas também a estabilidade familiar.

O consumo compulsivo não tem nada a ver com o endividamento puro e simples ligado a fatores econômicos ou sociais, por conta da inflação, do desemprego ou de salários baixos que não permitem o sustento adequado da pessoa ou da família. Nesse caso, a pessoa que se endivida uma vez sofre tanto com suas dívidas que vai agir no sentido de fugir ao máximo das novas prestações, passando a controlar melhor as suas finanças e evitando gastos desnecessários.

O consumo compulsivo é um distúrbio psicológico. O comprador compulsivo quer apenas sentir a satisfação pessoal que o ato de comprar proporciona: ele costuma comprar coisas supérfluas e sem necessidade, gastando o que não pode e sem se preocupar se vai conseguir pagar depois, sem jamais analisar suas finanças. Logo depois da compra, passada a euforia da sensação de comprar, ele pode se arrepender, mas isso não significa que vai parar de comprar! Ao contrário, vai comprar ainda mais para evitar essa sensação ruim, certamente vai sair para comprar mais alguma coisinha inútil ou que estava em liquidação pelo prazer de fazer uma boa compra, mesmo que o objeto comprado não tenha nenhuma utilidade depois. É como se fosse um vício do qual a pessoa não consegue escapar! A pessoa compra por comprar, porque o preço estava bom e não se importa se o objeto da compra será útil ou não. Em meu consultório, eu já atendi muitas pessoas compradoras compulsivas e vou citar um caso interessante. Uma paciente, que alegava não gostar de tomar café, relatou ter 3 cafeteiras em casa, compradas somente porque o preço estava numa promoção muito boa. Ela contou que não podia deixar de comprar porque, afinal, a cafeteira estava muito barata em relação ao preço normal! Quando indaguei o que ela faria com as cafeteiras, já que não gostava de tomar café, ela me disse que estavam guardadas no armário da casa, sem uso algum. Ela até se arrependeu de tê-las comprado, mas afirmou que não conseguiu se conter diante do preço muito abaixo do valor normal e da sensação boa de fazer essa compra. Ela comprou por comprar, sem se importar se as cafeteiras teriam alguma utilidade ou não, se poderia pagar por elas ou não. Seu casamento estava em risco porque ela acumulava muitas dívidas, que só aumentavam porque ela não tinha controle algum sobre seu impulso de comprar. Familiares e amigos não emprestavam mais dinheiro a ela porque sabiam que ela jamais os pagaria.

Pessoas que compram de forma compulsiva costumam ser pessoas muito ansiosas, estressadas, insatisfeitas e infelizes, que buscam um alívio temporário dos sintomas de sua ansiedade e desse estado de insatisfação no ato de comprar.

Quem compra de forma compulsiva não se preocupa como vai pagar, se tem ou não dinheiro disponível para isso, e se torna cada vez mais ansioso e impaciente quando passa algum tempo sem comprar nada: o ato de comprar serve como um alívio da ansiedade elevada. Além disso, como a compra produz um alívio temporário, daqui a pouco o mal-estar retorna: a pessoa compulsiva sente a necessidade de buscar um novo alívio no consumo, assim como um drogado que vai atrás da promessa de prazer na próxima dose.

E como comprar apenas alivia os sintomas da ansiedade elevada, mas não resolve o problema, a pessoa sempre estará comprando, num processo que tende ao infinito, trazendo cada vez mais problemas para a sua vida. Quem compra por compulsão vive pedindo dinheiro emprestado, deixa de pagar contas importantes, acumula dívidas e provoca muitos problemas no relacionamento com as pessoas à sua volta, principalmente sua família e amigos, que não entendem o porquê de ela gastar tanto sem necessidade alguma e, ao mesmo tempo, de não conseguir parar de comprar, mesmo estando endividada. Muitas amizades são desfeitas por causa desse problema, até porque a pessoa nunca consegue saldar suas dívidas; casamentos costumam terminar por conta do endividamento sem fim e, no final, a pessoa com a compulsão compulsiva pode se tornar uma pessoa solitária e mais infeliz ainda.

Mas, se o comportamento de comprar compulsivamente é um distúrbio psicológico, por que pouca gente procura resolver o problema através de um tratamento psicológico? O problema só é notado quando a pessoa não tem mais como conseguir dinheiro para pagar suas dívidas, quando a sua compulsão já ultrapassou todos os limites do seu crédito: mesmo assim, ela só passa a pensar que talvez tenha um problema quando a família ou parceiro a pressionam e a ameaçam com a separação, de expulsá-la do convívio ou de denunciá-la. E, mesmo assim, a pessoa não acredita piamente que tenha um problema e que não possa ser capaz de resolvê-lo sozinha: ela vai ao Psicólogo apenas porque se sente pressionada. Além disso, ainda existe uma crença absurda de que Psicólogo é para loucos e ela não se sente louca. Na verdade, os Psicólogos existem para ajudar a pessoa a resolver um problema quando ela não é capaz de resolvê-lo sozinha.

A compulsão por compras é um distúrbio provocado pela ansiedade elevada, causada pela maneira como a pessoa pensa, sente, interpreta e lida com as situações do dia a dia. Pessoas muito ansiosas tornam-se compulsivas como uma forma de tentar aliviar os sintomas da sua ansiedade, embora criem outro grande problema – no caso, o endividamento – e, ainda assim, não conseguem aliviar a sua ansiedade: daqui a pouco, lá estão elas novamente com suas atitudes compulsivas. É um círculo vicioso que não tem fim e que traz cada vez mais sofrimento. Para resolver o problema, é preciso entender os fatores que geram a elevação da ansiedade, aprender a lidar com eles e superá-los de forma que a compulsão seja superada e o problema se resolva.

Ao invés de criticarem a pessoa porque ela está endividada ou dar uma série de conselhos que só colaboram para que a pessoa se sinta pior do que já está, a família pode ajudá-la a superar essa compulsão, estimulando-a a buscar o tratamento psicológico, destacando a sua importância para superar esse problema em definitivo.

 

Dra. Olga Inês Tessari

Psicóloga e Psicoterapeuta desde 1984

Psicóloga Perita – Escritora –

Mediadora de Conflitos

Cursos e Palestras sob medida para

empresas e grupos

Pesquisas – Consultoria – Supervisão –

Life & Professional

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