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Entrevista | Presidente da FENASEC | Bernadete Lieuthier | Secretariado Executivo

Olá.

Nesta edição temos a Bernadete Lieuthier, uma das representantes do Secretariado Executivo do Brasil dentro das entidades e Sindicatos.

Com vocês, Bernadete Lieuthier.

Executiva News RD – Como você começou sua carreira?

Bernadete Lieuthier – Atuei por mais de vinte anos como Secretária Executiva em organização da gestão privada. Filiada ao Sindicato das Secretárias do Estado de Pernambuco, participava assiduamente de todas as atividades do Secretariado organizadas pelas entidades representativas. A convite, ingressei no movimento sindical da categoria e, desde então, apaixonada pelo Secretariado, foi só dedicação e luta pelo reconhecimento, união e valorização da profissão.

Executiva News RD – Como vê o Secretariado Executivo no Brasil nos dias de hoje?

Bernadete Lieuthier – Primeiramente, é importante esclarecer que a profissão de Secretariado tem um espaço ocupacional nos três níveis de gestão de uma organização: operacional, tático e estratégico. Afirmo isso porque Secretariado Executivo é um dos níveis que atuam no estratégico e é o mais respeitado enquanto atuação profissional, tendo posição de destaque e atuação plena das atividades no secretariar. Já os profissionais de Secretariado que atuam nos níveis tático e operacional das organizações ainda sofrem alguns impactos negativos, pela falta de conhecimento da relevância de contratação de serviços de profissional habilitado e com competências específicas para atuação no apoio à gestão nas organizações. Assim, muitas vezes, a atividade de secretariar não tem o nível de qualidade exigido por estar sendo exercido por profissional sem habilitação. Portanto, sem competências técnicas. Enfim, constato que, atualmente, a profissão já é reconhecida pelos gestores e líderes, mas ainda há muito por fazer para que a sociedade em geral reconheça a importância da profissão para a gestão organizacional.

Executiva News RD – Você acredita que estamos entrando em um novo ciclo da profissão?

Bernadete Lieuthier – Sim, acredito. As mudanças que estamos passando, no mundo dos negócios, com as lideranças mais atentas e dedicadas a novos modelos de gestão, implantação de conceitos de inovações, entre outras ações para melhoria de resultados e atingimento de excelência, contribuem significativamente para uma demanda maior e mais especializada de sua equipe e, sendo o profissional de Secretariado o primeiro na linha hierárquica desta equipe, tem este a oportunidade de ampliar seu campo de atuação e ter pleno exercício de secretariar, ou seja, intermediar os processos organizacionais e integrar os stakeholders para atender aos interesses dos negócios e da organização.

Executiva News RD – Por sua experiência, qual é o papel do profissional de Secretariado nas instituições nos dias atuais?

Bernadete Lieuthier – Papel de cogestor, visto que sua atuação é de suporte técnico/administrativo à gestão organizacional, seja de uma área funcional específica, seja atendendo a mais de uma área funcional.

Executiva News RD – Fale-me um pouco sobre a FENASSEC.

Bernadete Lieuthier – A FENASSEC foi criada em 31 de agosto de 1988, em Curitiba-PR, composta de 22 sindicatos, e tem por missão a defesa dos interesses coletivos ou individuais dos profissionais de Secretariado do Brasil. Seus objetivos: estudo, coordenação, orientação, proteção, defesa e representação legal da classe – Secretárias e Secretários –, promovendo o desenvolvimento profissional. Seus princípios: liberdade, autonomia, solidariedade profissional, ética e cidadania, sempre voltados à preservação da unicidade sindical.

Nesses vinte e nove anos de existência, a FENASSEC, juntamente com os sindicatos filiados, realizou ações direcionadas ao reconhecimento da profissão pela sociedade; implantou eventos técnicos (congressos, simpósios, seminários, encontros de docentes e coordenadores de cursos de Secretariado, além de fóruns nacionais de debates sobre competências profissionais); firmou convênios de cooperação técnica com países lusófonos; realizou contatos com associações internacionais para intercâmbio de experiências profissionais e conhecimento da realidade internacional; criou a revista Excelência, com tiragem de 40 edições; trabalhou para a criação e implantação das diretrizes curriculares nacionais para o curso de graduação em Secretariado (Resolução Nº 3/2005 do CES-CNE); instituiu o código de ética profissional, com o objetivo de fixar normas de procedimentos dos profissionais quando do exercício de sua profissão; criou e implantou planos de cargos e salários e os incluiu nas normas coletivas de trabalho de piso salarial; trabalhou a atualização da Lei de Regulamentação (PL 6455/2013); desenvolveu ações coordenadas e planejadas para manter a qualidade dos cursos de formação e reverter a decisão da Secretaria da Educação Superior/MEC que extinguia o curso de Secretariado Executivo – bacharelado –, com adesão maciça da sociedade, de docentes e coordenadores de cursos, de diretórios acadêmicos e de profissionais de todo o país, com êxito na ação e publicação nos referenciais curriculares nacionais em 2008; desenvolveu e vem desenvolvendo ações visando a criação do Conselho Federal e Regionais de Secretariado; entre outras.

Como se percebe, a FENASSEC construiu e continua construindo a história do Secretariado: esse é o seu papel para garantir a sustentabilidade da profissão. Essa responsabilidade também é de cada profissional, no exercício diário de suas atribuições dentro do mundo corporativo, contribuindo para a construção de um mundo melhor e uma sociedade mais justa e igualitária.

Executiva News RD – A Lei não é cumprida no Brasil em vários setores, e não é diferente com o Profissional de Secretariado. Como podemos mudar isso?

Bernadete Lieuthier – É verdade. Nessas últimas três décadas, a categoria presenciou o reiterado descumprimento de sua respectiva Lei Regulamentadora (Lei nº 7.377/85), por meio de diversas organizações que persistem na contratação de pessoal que não detém as necessárias competências e habilitação profissional, em que pesem os esforços das entidades representativas da categoria para barrar tais infrações. Infelizmente, não há por parte do Poder Público nenhum órgão competente para fiscalizar a efetiva observância dos requisitos de habilitação profissional exigidos pela Lei, o que só reforça a necessidade de criação do Conselho Profissional de Secretariado, que atuará com poder de Polícia.

Executiva News RD – Fale-me um pouco sobre a Criação do Conselho Nacional de Secretariado.

Bernadete Lieuthier – Entendo que o Conselho Profissional de Secretariado é o órgão que falta para a solidificação da profissão. Ele terá o dever de regulamentar, controlar, fiscalizar e zelar pelo exercício regular da profissão. A nossa profissão é regulamentada há mais de 32 anos, mas, infelizmente, constata-se nos dias atuais grande número de desvios na profissão. Por isso, diversas iniciativas foram adotadas por seus respectivos entes representativos, sobretudo pela FENASSEC, para criar o seu Conselho de classe. Foram realizadas audiências públicas na Comissão de Trabalho e Serviços Públicos da Câmara dos Deputados em Brasília; audiências no Ministério do Trabalho e Emprego, na Casa Civil e no Ministério do Planejamento; atos públicos nas Assembleias Legislativas de vários estados e moções de apoio. E, recentemente, dia 26/9, foi realizado um seminário nacional no auditório Nereu Ramos na Câmara Federal em Brasília. Falta vontade política para o Conselho ser criado, pois os requisitos nós atendemos: é uma profissão regulamentada, tem formação em todos os níveis (técnico, tecnólogo e bacharelado), sua atuação requer conhecimento e competências técnicas, está inserida/atua em todos os segmentos da atividade econômica, entre outros.

Assim, espera-se contar com o apoio de todos os parlamentares junto ao Poder Executivo, especialmente do Ministério do Trabalho e Emprego e do Ministério do Planejamento e da Casa Civil, no sentido de viabilizar o encaminhamento do Projeto de Lei de criação do Conselho de Secretariado ao Congresso Nacional. A FENASSEC, sempre buscando a realização dessa conquista, já retomou a articulação política nesse sentido. No dia 03/08/2017, foi recebida pelo Secretário-Executivo da Secretaria Geral da Presidência da República, Senhor Joaquim Lima de Oliveira, ocasião em que entregamos em mãos a minuta de Projeto de Lei para criação do Conselho de Secretariado, com o pedido de que aquela Casa tome a iniciativa do encaminhamento.

Executiva News RD – O profissional de Secretariado, hoje representado por homens e mulheres, mas que foi marcado durante muitas décadas por ser uma profissão exercida apenas por mulheres, sempre foi visto por todos como uma profissão fácil de ser exercida e que muitos poderiam atuar, mesmo sem uma formação ou curso. Já sabemos que o profissional de hoje tem muitas habilidades e atuam em várias frentes. Como você vê esses pontos?

Bernadete Lieuthier – Sim, por muitos anos houve uma predominância do exercício profissional por mulheres na profissão de Secretariado e, assim como em outras, a predominância era para homens, mas, nos últimos anos, temos acompanhado a desvinculação de gênero para atuação profissional, tanto em relação ao homem quanto a mulher, o que considero muito importante para o respeito mútuo pelas competências no exercício profissional. Quanto à visão de que a atuação desta atividade profissional era irrelevante, ocorreu, dentre vários motivos, devido a um modelo de gestão com uma estrutura organizacional pesada, o que permitia que o gestor tivesse um “staff” composto por Secretária e Assessores Técnicos, ou seja, cabia ao profissional de Secretariado somente as atividades operacionais. Com o advento da tecnologia e as mudanças de modelo de gestão, a atividade do profissional de Secretariado ampliou seu espaço ocupacional, consequentemente com a obrigatoriedade de ter profissional competente para o seu exercício.

Executiva News RD – Os profissionais descobriram o Secretariado Remoto. Eu, por exemplo, já estudo a modalidade desde 2009 e comecei a atuar em 2015. Muitas outras pessoas têm tentado empreender nesta modalidade, mesmo sem conhecimento técnico ou administrativo. Não há nada que possa ser feito, afinal, não é uma modalidade descrita na Lei do Profissional de Secretariado. Lá fora já é uma realidade essa nova visão de uma profissão aliando Secretariado e home-office. Como a Federação Nacional de Secretariado vê essa nova função?

Bernadete Lieuthier – A atividade de Secretariado Remoto é mais uma oportunidade de atuação para o profissional, portanto, devemos apoiar. Quanto à legalização, entendo que não se aplica, pois a Lei de Regulamentação deve prever as responsabilidades e atribuições profissionais. Quanto às modalidades de atuação, depende das demandas de mercado e o seu exercício deve se dar por profissionais habilitados, ou seja, entendo que as competências do profissional habilitado devem sobrepor ao amadorismo, bem como a sociedade em geral reconhecer a qualidade dessa prestação de serviços, para que tenhamos a gestão da Secretária Remota realizada por Secretários habilitados. Quanto à realidade no exterior, sim, já constatamos ser essa uma prática e forte tendência em nosso país, até porque os Secretários brasileiros já trazem em sua história a posição de vanguarda e reconhecimento. Em 2001, o jornal The Guardian publicou uma matéria onde reconhecia os Secretários brasileiros como os mais bem preparados do mundo. O Brasil é um dos únicos países que têm a lei de regulamentação para a profissão de Secretariado. Tudo isso muito nos orgulha, pois somos referência para muitos colegas do exterior. Quanto à oportunidade de atuação, considero ser uma opção interessante para Secretários empreendedores com maturidade profissional para atender muitas empresas/clientes, sempre prezando pela assertividade técnica, pela ética e sigilo profissional.

Executiva News RD – Por sua experiência, qual é a mais difícil função de um profissional de Secretariado Executivo?

Bernadete Lieuthier – Não diria função e nem difícil, mas a atividade mais complexa é a da administração do sigilo profissional, pelos seguintes aspectos:

1.Na gestão da informação, muitas vezes a decisão para com quem compartilhar, o que compartilhar e em que medida compartilhar é bastante complexa, pois é solitária e de alto risco.

2.Conflitos de princípios éticos: corre-se o risco de estar em uma empresa que preza pelos princípios éticos, mas secretariar um executivo que os infringe. A decisão de posicionamento diante dessa situação também é complexa, devido ao risco de manutenção do emprego e/ou questões de segurança.

3.Responsabilidade pelas informações que tem conhecimento, por força de sua atuação, que pode gerar algum tipo de assédio, envolvimento criminal de coparticipação, entre outros impactos na vida pessoal.

Executiva News RD – Você acredita que as empresas não entendem ainda nos dias de hoje o quanto é importante o profissional de Secretariado nos processos internos?

Bernadete Lieuthier – Sim, acredito que ainda há muito por fazer para que a profissão seja respeitada e valorizada, pela sua importância nos processos internos e resultados organizacionais. Acredito também que somente com o exercício de profissional habilitado e competente é que consigamos reverter essa imagem.

Executiva News RD – Um jovem ainda em escolha de uma profissão, prestes a ingressar em uma Universidade, deve escolher o Secretariado por quê?

Bernadete Lieuthier – Por ser uma profissão que propicia muitos desafios, no campo de atuação e no exercício diário, por oportunizar a participação na construção e desenvolvimento de grandes empreendimentos, na medida em que tem sua atuação direta na gestão organizacional, por permitir atuação em qualquer segmento de mercado. A profissão de Secretariado é indicada para pessoas motivadas pela autorrealização, pelo desejo de assumir responsabilidades, que gostam de desafios, com paixão por intermediar e integrar interesses para empreendimentos sólidos e com sólidos princípios para ser articulador do bem e da ordem social.

Executiva News RD – O que seria o ideal para a profissão para daqui a 10 anos?

Bernadete Lieuthier – Ter a identidade solidificada, ser reconhecida como provedora de soluções administrativas à gestão organizacional e ter atuação especializada para contribuir, direta e efetivamente, aos anseios das organizações quanto ao nível de excelência e competitividade.

Executiva News RD – Os profissionais de Secretariado do Brasil são unidos?

Bernadete Lieuthier – Não no nível que eu, como Dirigente da Categoria Profissional no Brasil. Gostaria, mas entendo que já evoluímos muito e, também, superamos os obstáculos que as características da profissão nos impõem, tais como: por estar junto aos centros decisórios e poder, tem atuação discreta e isolada, pela atividade profissional permitir atender equipes de trabalho, muitas vezes não tem oportunidade de compartilhar com outros colegas de profissão, assim como é difícil ter liberdade para ausentar-se da sua estação de trabalho. Constato em várias oportunidades que há vontade e necessidade de compartilhar experiências, de discutir questões relacionadas à evolução da profissão e essa constatação permite a afirmação que, apesar da extensão territorial de nosso país, da característica de pulverização e dos obstáculos da rotina de trabalho, estamos conseguindo a união cada vez maior.

Executiva News RD – Por favor, deixe sua mensagem.

Bernadete Lieuthier – A entidade representativa da categoria profissional tem a missão de defender os interesses e direitos do Secretariado, mas só conseguirá cumprir plenamente se os profissionais participarem e estiverem unidos. Por esse motivo, convoco a todos a serem atuantes, pois só seremos fortes se estivemos unidos em propósitos e ações.

Nesse momento conturbado que atravessa o País, com a alteração da Legislação Trabalhista, redução e perda de direitos históricos dos trabalhadores, para a nossa categoria, que é diferenciada, é de vital importância fortalecer os nossos sindicatos representativos, para que tenham uma atuação forte e combativa e que possam continuar lutando por melhores condições de vida e de trabalho e salários dignos para os profissionais Secretários que representam.

Muito obrigada, Bernadete Lieuthier

Sandra Tarallo e Equipe Executiva News

 

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